O Castelo de Areia

Em janeiro fui a Cabo Frio, uma cidade no estado do Rio de Janeiro para passar o Réveillon com a minha namorada e sua família, tomando um banho de mar, distraindo um pouco do trabalho, enfim, saindo um pouco da frente do computador pra variar. Lembro-me que um fato ocorrido na areia da Praia do Forte, para o qual eu não liguei de imediato, mas que depois me deixou pensando um bocado, pensando tanto que me revelou um modo diferente de ver a vida.

Eu estava sentado debaixo do nosso guarda-sol, pois o sol estava muito quente, tão quente que eu não tinha nem vontade de ficar no mar, e o calor foi me deixando um pouco mal-humorado. Minha namorada foi fazer uma caminhada com sua mãe e eu fiquei lá sentado meditando na minha irritação e na minha vontade de voltar pro hotel. No guarda-sol ao lado do nosso, havia um menino que aparentava uns quatro pra cinco anos de idade.  Eu o fiquei observando durante uns trinta minutos a brincar com a areia. Aos poucos, vi que ele ia moldando um imponente castelinho de areia, com todo o cuidado pra não desmoronar. O menino fazia caretas de concentração a cada passo que o castelinho ia ficando mais alto. De vez em quando, parte do castelinho que não estava bem arquitetada caía, mas ele ainda sim não desistia, construía tudo de novo. Passada a construção, o menino tirou pra fora um estojinho com muitos bonequinhos de ação, e começou a brincar com eles no seu castelo, que agora parecia uma bruta fortaleza de areia. Ele ficou entretido com a brincadeira por uns 20 minutos, até que de repetente, alguém que jogava bola, deixou-a escapar e ela foi cair bem em cima do castelinho. O menino fechou a cara de vez, mas quando eu achei que ele fosse chorar, ele se colocou a construir o castelo novamente, a partir do que havia sobrado da estrutura. Quando vi a cena, fiquei muito intrigado com a perseverança do menino, e como eu estava perto dele, lhe perguntei: – por que você constrói o castelo, se daqui a pouco vão derrubar novamente? – O menino, me olhou com espanto, pois não sabia que estava sendo observado por mim. – Eu faço o meu castelinho pra eu poder brincar, se depois eles derrubarem, não tem problema, não vai ser por isso que eu vou deixar de brincar… – disse-me o menino.

Voltei para o hotel, e para minha surpresa, recebi uma ligação do trabalho, dizendo que precisavam de mim no dia seguinte. A viagem era longa, e como estava chovendo, o tempo de viagem aumentaria ainda mais, pois a estrada era traiçoeira e cheia de curvas, fazendo com que o motorista fosse mais cauteloso. A viagem foi lenta, e por sorte eu havia levado um livro, que eu levei cerca de 70% da viagem para ler. Quando acabei o livro, fiquei olhando a paisagem por fora da janela, observando a chuva. Não sei por quê me pus a pensar sobre a criança do castelo de areia; sobre a resposta que havia me dado.

…Eu faço o meu castelinho pra eu poder brincar, se depois eles derrubarem, não tem problema, não vai ser por isso que eu vou deixar de brincar… Não sei porque fiquei intrigado com o menino, pois ao refletir um pouco, percebi que a nossa vida é como a construção de um castelinho de areia na praia. Começamos, por não ter mais o que fazer, a moldá-la. Dedicamos todo o nosso tempo para fazer com que ela se torne cada vez melhor. Tentamos sempre sermos mais fortes, mais resistentes, mais sábios, mais cultos, e alguns até mais burros, dependendo de suas aspirações do futuro. Muitas vezes, quando achamos que estamos só progredindo no nosso castelinho de areia, sempre tem alguém que chuta a bola bem em cima. O que a maioria de nós faz, é ficarmos muito tristes, deixar o castelinho de lado e ir brincar de outra coisa… Mas alguns, começam de novo, e acabam por fazer um castelo de areia mais forte e mais sólido que o anterior. E realmente, o molequinho estava certo quando ele disse que se depois eles derrubarem, não tem problema, afinal, o que na vida dura pra sempre?? Tudo o que o homem constrói é um castelo de areia, fadado a tomar uma bolada a qualquer momento, mas se não arriscarmos, nunca veremos o nosso castelo de pé, e nunca brincaremos com os nossos soldadinhos.

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